Resenhas

A bolsa dos excluídos

La Vie à Sac - CAPA

La Vie à Sac - CAPA

Quatro trajetórias às margens da sociedade, marcadas pela solidão, por doenças e pela exclusão social. A dura vida de cada um dos personagens de La Vie à Sac (A vida na Bolsa) é descrita a partir do pouco que lhes resta: basicamente aquilo que carregam em suas bolsas. O webdocumentário, produzido pela organização não governamental Médicos do Mundo e pela agência francesa Capa, transita por esses objetos individuais tecendo um fio narrativo sobre o drama da exclusão.

Apoiando-se em seu relatório anual que aponta um crescimento no número de imigrantes ilegais, moradores de rua e mães solteiras na França, bem como um significativo retrocesso nas condições de vida para essas pessoas, a ONG procura com o documentário demonstrar um pouco suas ações no país. Interativamente, os visitantes transitam pelos objetos de cada personagem. Entre a memória de um passado distante ou as expectativas de um futuro melhor, diante de um presente tão opressivo, o espectador aos poucos vai conhecendo e se sensibilizando com essas vidas.

Diktatora, uma romena que se instalou com a família em um campo nas redondezas de Nantes procurando auxilio médico para sua filha de 2 anos; Patrick, solitário morador de rua há 10 anos instalado na periferia de Toulouse; Maro, garotinha que, com apenas 8 anos de idade, enfrenta a leucemia em um apartamento insalubre nas proximidades de Paris; e o jovem Kamron, que atravessou diversos países fugindo do Afeganistão até chegar na cidade portuária de Calais, onde espera regularizar sua situação de refugiado. Todos sobrevivem em meio a agonias e colapsos, sempre contando com o apoio de ONGs ou associações locais que desempenham um papel fundamental no auxilio a essas pessoas.

Na página de cada personagem, estão abertamente dispostos seus objetos: fotografias, remédios, documentos e lembranças individuais. Cada clique abre um vídeo de 1 ou 2 minutos com boas imagens e depoimentos fortes e tocantes. Conhecer exemplos específicos traz ao espectador uma forte conscientização sobre a complexidade da situação e as dificuldades encontradas por essas pessoas.

Co-realizado pela cineasta Sólveig Anspach, pela jornalista Karima Hamzaoui e pela fotojornalista especialista em questões sociais Diane Grimonet, o projeto consegue lançar um olhar humano e individual para uma situação comumente ignorada ou deixada à margem da sociedade diante de políticas publicas tão repressivas.

La Vie à Sac
Produção: Médecins du Monde e CAPA
Em francês

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

As torres do mundo. O mundo nas torres

Out of My Window - National Film Board of Canada

“Pela primeira vez em nossa história, a maior parte da população mundial está vivendo em áreas urbanas”.  A frase que abre o prólogo de HighRise, da National Film Board of Canada, demonstra bem a preocupação do projeto em debater o desafio que a urbanização desenfreada traz às sociedades no século XXI. Investigando o que há por trás dos arranha-céus que se multiplicam nas paisagens urbanas, HighRise pretende estender sua duração por diversos anos e publicar conteúdos em vários suportes, incluindo apresentações, instalações, conteúdos para celular e webdocumentários. O webdoc Out of My Window é apenas uma pequena parte desse extenso projeto, mas deixa claro o quanto essa ferramenta é poderosa para a construção dessas narrativas.

Imaginar um documentário tradicional sobre a verticalização urbana poderia levar realizadores a optar por diversos caminhos: entrevistas com especialistas, urbanistas, moradores, cenas internas de apartamentos, externas da rua, paredes de concreto, imagens poéticas etc…  Qualquer dessas opções, entretanto, seria organizada de forma linear, relacionada direta ou indiretamente com a subjetivamente do diretor.  Já Out of My Window consegue, efetivamente, passear por todos esses elementos, justamente porque soma à linguagem documental recursos interativos e não lineares da web.

Assim, se o filme é uma peça única, quem constrói a relação entre seus elementos é o próprio espectador, com grande liberdade e recursos para navegação. Essa idéia fica clara logo na primeira interface, onde é apresentada uma colagem com diversas janelas de apartamentos como se todas estivessem conectadas a um único prédio. Se o bloco do prédio representa o bloco do filme, fica a cargo do espectador conduzir a navegação pelos 13 apartamentos – 13 diferentes histórias de 13 lugares do mundo – e perceber como personagens e lugares tão distintos se relacionam em um único sentido.

Estão representados edifícios de Chicago, Toronto, Montreal, Havana, São Paulo, Amsterdã, Praga, Istambul, Beirute, Bangalore, Phnom Penh, Taiwan, e Johanesburgo. O link de cada apartamento dá acesso a uma foto-colagem em 360 graus, mostrando tanto áreas do interior, incluindo o apartamento e seus residentes, quanto o exterior da cidade. Navegando nessas paisagens, muitas de uma beleza plástica surpreendente, o internauta pode clicar em elementos e abrir conteúdos que variam de simples textos e fotografias ao moderno recurso de vídeo em 360 graus, feitos com uma câmera especial.

Capítulo sobre São Paulo mostra o Movimento dos Sem Teto do Centro

No caso brasileiro, por exemplo, o apartamento retratado é o de Ivaneti de Araújo, ex-moradora de rua, ativista social e líder do Movimento dos Sem Tetos do Centro. Sua luta em defesa ao direito à moradia, contra a especulação imobiliária e por uma finalidade social aos cerca de 400 prédios abandonados no centro de São Paulo são contadas em quatro vídeos de dois minutos aproximadamente, construídos com base em depoimento em áudio e fotografias still. As imagens foram feitas por Tatiana Cardeal, fotojornalista que acompanha o movimento dos sem tetos desde 2005, quando realizou o filme Prestes Maia: Diário da Exclusão, sobre a ocupação histórica do edifício Prestes Maia.  O mesmo tema, aliás, já rendeu outro premiado documentário brasileiro: Tobias 700 – A História de uma Ocupação, de Daniel Rubio.

Tanto Out of My Window quanto o projeto maior que ele integra fazem uso da filosofia já usada no premiado projeto Filmmaker-In-Residence (FIR), também da NFB, realizando em um hospital na periferia do Canadá (veja abaixo o vídeo – manifesto). A ideia é colocar em primeiro lugar pessoas, processos, criatividade e colaboração buscando a construção de conteúdos multimídias do ponto de vista das comunidades. A diretora Katerina Cizek, que atuou em todos esses projetos, segue fazendo um bom trabalho. Out of My Window mostra que um prédio não é apenas uma estrutura física de concreto servindo de abrigo para pessoas, mas que, no seu conjunto, essas vidas se relacionam e criam significados.  Essa compreensão é fundamental para o problema urbano que as sociedades devem enfrentar nos próximos anos.

Out of My Window
Produção:
National Film Board of Canada
Em Inglês

Atualização: Out of My Window foi o ganhador de dois importantes prêmios recentes: o IDFA DocLab 2010 para melhor Digital Storytelling, em novembro de 2010, e o Emmy Award, categoria Digital Program – Non-Fiction, em abril de 2011.

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

A crise, em HTML5

La Crise du Lait - 3WDOC

O debate sobre Flash e HTML5, duas tecnologias concorrentes para o desenvolvimento de conteúdos multimídia em web sites, certamente atingiu o campo do webdocumentário. Embora hoje o Flash seja predominante, quem pensa na perenidade das produções deve analisar qual será a plataforma predominante no futuro próximo. Procurando criar uma demonstração sobre o potencial do HTML5 como alternativa viável ao Flash, o estúdio francês 3WDOC acaba de lançar o projeto La Crise Du Lait, desenvolvido inteiramente em HTML5.

A experiência da 3WDOC tem a intenção de colocar a prova diversas especulações sobre essa nova linguagem de programação e, sobretudo, demonstrar que é completamente possível a utilização do HTML5 no desenvolvimento de narrativas web que atendam a exigências editoriais de um fotojornalista como Samuel Bollendorff, já reconhecido no universo do webdocumentário por trabalhos como Voyage au Bout do Charbon (Le Monde/ Honkytonk) e o premiado The Big Issue (Honkytonk). O projeto foi desenvolvido com base no Player 3WDOC, leitor de vídeos e sequências em HTML5 já desenvolvido anteriormente pela própria empresa, mas alguns efeitos suplementares foram integrados para atender a necessidades especificas desse novo projeto.

A 3WDOC dá passos importantes para a consolidação do HTML5. O objetivo do Player é colocar à disposição de produtores, fotógrafos e agências especializadas em multimídia uma ferramenta que os permita conceber todo ou parte do conteúdo de seus sites de maneira multimídia ou interativa. O Player é comandado por meio de uma simples página web, construída na linguagem HTML5, mas a empresa promete liberar em breve o código desse aplicativo, permitindo a qualquer pessoa com noções de HTML5 criar seu próprio site interativo ou webdocumentário. Além disso, uma versão mais completa, denominada 3WDOC Studio, também deve ser lançada, integrando também um editor de sequências de fácil utilização.

Todo esse esforço visa consolidar a superação da ferramenta Flash, da Adobe, que há algum tempo vem sendo contestada por alguns fabricantes, sobretudo a Apple que inclusive retirou o suporte à linguagem nos seus mais recentes produtos (iPad e iPhone). A empresa afirma que o Flash tem problemas de segurança, confiabilidade e desempenho que comprometem seu uso em dispositivos móveis, além de consumir excessivamente a bateria e não permitir o “toque na tela”. Ademais, a Apple afirma que a tecnologia Flash é um monopólio da Adobe e que prefere trabalhar com linguagens abertas como o HTML5, CSS e JavaScript (leia aqui a nota oficial da Apple sobre o assunto).

Como o HTML5 permite a visualização de vídeos, gráficos e outros elementos sem a necessidade de ferramentas externas, o Flash corre mesmo o risco de ficar obsoleto.  A Adobe rebate as acusações dizendo que está aperfeiçoando o desempenho e consumo de bateria relacionado ao Flash, e afirma que seu player deve se fortalecer diante dos crescentes problemas enfrentados pelo HTML5 e por outras tecnologias emergentes. Uma opinião que deve ser considerada, já que se trata de uma empresa que atua em produções multimídias de forma hegemônica há mais de 10 anos.

O Player 3WDOC e o projeto La Crise Du Lait, são melhores visualizados com o Google Chrome, provavelmente o navegador com melhor suporte para HTML5. Em outros browsers, os vídeos e a navegação realmente podem ficar comprometidos. Nesse debate tecnológico tão intenso, o conteúdo do documentário de Samuel Bollendorff acaba ficando em segundo plano. O projeto foi patrocinado pelo Centro Nacional do Audiovisual de Luxembrugo e procura conscientizar um pouco os consumidores franceses sobre a crise do leite ocorrida recentemente. O mais provável é que consiga conscientizar consumidores de tecnologia sobre problemas e benefícios de uma nova plataforma.

La Crise Du Lait
Produção: 3WDOC
Patrocínio : Centre National de l’Audiovisual – Luxembourg
Em francês

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

O poder de novas ideias

Changer le Monde - Canal+

Changer le Monde - Canal+

Empreendedorismo social é um termo que vem ganhando notoriedade há alguns anos. A crise econômica mundial, o crescimento da desigualdade em níveis locais e globais e a ineficiência de políticas públicas no combate aos principais problemas da sociedade incentivaram diversos indivíduos a questionar o modelo econômico dominante e a criar iniciativas inovadoras. No webdocumentário Changer Le Monde (Mudar o Mundo), que acaba de ser lançado pelo canal de televisão francês Canal+, oito empreendedores engajados nessa batalha por um desenvolvimento sustentável compartilham suas visões e as maneiras que encontraram para promover o bem estar social.

Com uma seleção de participantes bem distribuída geograficamente, incluindo o brasileiro Fabio Rosa, que conta sobre seu projeto de trazer eletricidade para regiões isoladas por meio de paineis solares, o webdocumenário tenta lançar um olhar para o “capitalismo de amanhã”, buscando uma resposta para a crise que afeta esse modelo.

O empreendedorismo social busca um desenvolvimento mais equilibrado, preocupando-se com retornos sociais e o impacto sobre o meio ambiente e a sociedade, questões muitas vezes ignoradas pelos empreendedores clássicos, que executam seu trabalho buscando apenas a maximização dos lucros.

Além do brasileiro, estão no projeto dois africanos, dois norte-americanos, um indiano, um afegão e um israelense. O webdoc é dividido em oito retratos, nos quais cada participante fala sobre seu projeto em um vídeo de dez minutos aproximadamente. Assistindo a cada vídeo sempre é possível “saber mais”, clicando em um botão que interrompe a narrativa e dá acesso a novos vídeos, documentos, mapas ou fotografias sobre o assunto.

Os projetos, em geral, discutem questões especificas de determinadas regiões, como o saneamento básico nas favelas do Quênia ou israelenses e palestinos trabalhando numa mesma empresa. Mas procuram, fundamentalmente, demonstrar o poder que as novas ideias têm na transformação da sociedade.

Se o capitalismo deixou consequências que podem se tornar insustentáveis, como a desigualdade social e o aquecimento global, o filme procura formas de melhor compreender e melhor agir economicamente. O tempo dirá se ideias que não sejam voltadas apenas para o lucro serão capazes de sobreviver nesse sistema.

Changer Le Monde
Produção:
Canal+ e CAPA
Distribuição : Canal+
Financiamento: CNC
Em francês

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quinta-feira, 11 de novembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Um país clandestino

Little Burma - Le Monde

Little Burma - Le Monde

Mae Sot é um pequeno território independente no oeste da Tailândia, funcionando como uma espécie de fronteira natural com a República da União de Mianmar (nome oficial da Birmânia). A região é também conhecida como Little Burma (Pequena Birmânia) por ter uma representativa população de imigrantes birmaneses que se refugiam do governo militar nesse local. Essa situação atraiu recentemente a atenção de ONGs e instituições internacionais, que desenvolveram programas para atender às necessidades desses trabalhadores e suas famílias, construindo e apoiando as atividades de escolas, hospitais e centros de ajuda.  Esse cotidiano de resistência e clandestinidade é o tema de Little Burma, novo webdocumentário do periódico francês Le Monde.

O webdocumentário pretende lançar um olhar sobre as bordas de resistência ao regime militar. E foi lançado logo após as eleições gerais ocorridas no dia 7 de novembro, as primeiras desde a anulação do pleito de 1990.

O projeto mostra como em Mae Sot, sobrevive uma Birmânia paralela, com anseios democráticos e esperanças pela liberdade. Se a região funciona praticamente graças à ajuda internacional, o webdocumentário cumpre bem a função de retratar diversas dessas instituições.

A narrativa é estruturada em um mapa, cabendo ao espectador clicar em diferentes entidades ou personagens representados e assim acessar a informações textuais sobre cada um. Seis vídeos estão relacionados a alguns desses personagens e instituições, abordando temas como prisioneiros políticos, saúde, educação, trabalho clandestino e acesso à informação para a população no exílio (tema, aliás, do premiado documentário VJ de Mianmar, indicado para o Oscar 2010 e vencedor do É Tudo Verdade de 2009).

O espectador navega assim por lugares como a clinica Mae Tao, uma das mais importantes instituições de Mae Sot, cuidando da saúde de milhões de pessoas que são obrigadas a atravessar a fronteira para receber tratamento adequado devido à baixa qualidade de serviço em Mianmar, e o Centro de Desenvolvimento da Infância, colégio que acolhe mais de 1.200 estudantes birmaneses que, apesar de sua situação irregular, recebem ensino com a mesma qualidade dos bons estabelecimentos tailandeses.

Os vídeos são montados utilizando diversas fontes, como fotografias, filmagens e depoimentos em áudio. Um recurso interessante é o uso recorrente de ilustrações, realizadas por Joel Alessandra, que muitas vezes recriam situações citadas nos depoimentos.

O uso de animações é um fenômeno crescente e marca novas formas de acesso e representação da realidade. A técnica permite a simulação de acontecimentos sem a presença de um dispositivo material (câmera). Enquanto documentário se apropria da tecnologia para criar novas representações do mundo histórico, o webdocumentário se mostra como um terreno bastante fértil para essas experimentações.

Little Burma
Produção: Inflammable
Distribuição: Le Monde
Em Francês

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Ideograma japonês

Soul Patron

Soul Patron

Um dos personagens mais influentes da história do cinema, o cineasta russo Sergei Eisenstein, procurou no estudo dos ideogramas japoneses uma relação estrutural com a arte cinematográfica, percebendo no conceito de montagem traços muito próximos aos da escrita nipônica. Hoje, quase cem anos depois dessas análises, as referências à cultura oriental, que transformaram a cinematografa nos anos 20, seguem influenciando artistas e transformando a articulação dos discursos narrativos e audiovisuais. O webdocumentário Soul Patron, do jovem diretor alemão Frederik Rieckher, mostra como essa relação ainda pode ser refletida em uma nova e criativa perspectiva narrativa.

Soul Patron é um documentário interativo sobre Mizuko Jizo e o Japão. Mizuko Jizo é uma divindade budista, guardião das crianças, sobretudo aquelas que faleceram prematuramente, antes de seus pais. Na mitologia, essas crianças não podem alcançar o caminho para a vida eterna e Jizo salva suas almas protegendo-as de demônios. O webdocumentário, contudo, não tem como foco essa questão, mas uma viagem intima pela atmosfera do país, por sua religião, cultura e sociedade. Para construir esse trajeto, é notável a influencia de conceitos e percepções da cultura oriental, identificados aqui com os traços imagéticos do projeto, possuindo uma afinidade muito grande com a analogia desenvolvida por Eisenstein.

Eisenstein afirmava que a construção de sentido pela montagem, analogamente à constituição figurativa dos ideogramas japoneses, não era o resultado da soma de dois planos, mas um produto, um valor com outra dimensão. O que ele afirmava, em seu famoso conceito de montagem intelectual, é que, mesmo que cada plano corresponda a um objeto ou a um fato, sua combinação remete a um conceito novo, obtido pelas duas representações. Como exemplo o cineasta citava as combinações dos ideogramas cachorro e boca resultando em latir, ou faca e coração resultando tristeza. Nesse sistema, cada representação é essencial e única, contribuindo para suscitar no espectador sentimentos de uma mesma intensidade.

Webdoc traz belas cenas em 34 blocos

A semelhança desse modelo com a proposta de Soul Patron é fortíssima, somada aqui à não linearidade e interatividade características dos webdocumentários. O projeto, dividido em 34 cenas, é contemplativo e leva o visitante à construção de um ideograma sobre o Japão, do templo de Kumakuru às ruas de Tokyo e Osaka. Em cada cena, em um total de mais de seis horas de material em vídeo, os usuários podem navegar por detalhes articulando os planos e construindo uma sensação particular.

O projeto é parte do trabalho de conclusão de curso do diretor para a Universidade de Ciências Aplicadas de Darmstadt, Hessen – Alemanha e, portanto, não possui finalidades lucrativas ou comerciais. Com imagens belíssimas e muita sensibilidade, a alta qualidade do webdoc o levou à mostra Doc Lab do Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (leia aqui o comentário). Na apresentação, o cineasta Frederik Riechmer deve criar uma versão ao vivo do projeto.

Soul Patron
Produção: Water Moon
Em Inglês

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Excursão científica

Saving Papua New Guinea's Forests

Saving Papua New Guinea's Forests - Deutsche Welle

A luta contra as mudanças climáticas não pode ser garantida sem que se preserve as florestas tropicais. Essa é a premissa do webdocumentário Proteção Florestal em Papua Nova Guiné, do canal alemão Deutsche Welle, mas disponível também em português. Para demonstrar o papel fundamental que desempenham as florestas no clima do planeta, o webdoc leva o espectador a uma viagem interativa pela cidade de Tep Tep, em Papua Nova Guiné.

O site é construído com a proposta de colocar o internauta numa espécie de jogo, tornando-o protagonista da história. O visitante é convidado a assumir o papel de um jornalista interessado em questões climáticas, em uma viagem pela ilha de Nova Guiné. O webdoc se desenvolve a partir de escolhas feitas pelo internauta, como para onde ir ou o que perguntar para o guia ou para um nativo da região. Ao final de cada etapa, pequenas caixas de texto oferecem opções alternativas para continuar o percurso narrativo.

Recursos parecidos são utilizados em outras produções de webdocumentários, como os filmes da produtora francesa Honkytonk films (ver Irock – Os Bastidores de um Festival). Embora a ideia de colocar o espectador num jogo e deixar que ele trace seu próprio caminho pareça uma boa ferramenta interativa, esse recurso tem de ser usado com cuidado. Caso contrário, o resultado pode parecer um pouco forçado, já que o número de opções é limitado e o visitante se vê obrigado a aceitar determinadas situações. Discussões sobre essas opções de formato mostram o quanto as noções de interatividade podem se tornar complexas quando se decide representar o real por meio de novas ferramentas web.

Proteção Florestal em Papua Nova Guiné.
Produção:
Deutsche Welle.
Distribuição: Deutsche Welle.
Em português, inglês e alemão.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

A cultura da Grande Maça

New York Minute - Arte

New York Minute - Arte

Nova York é a mais populosa cidade norte-americana e um dos mais importantes centros urbanos do mundo. Além do inegável o papel que exerce na economia e no comércio internacional, a influência cultural – sobretudo da cultura urbana – também é um aspecto fundamental da vida na cidade. Berço de diversos movimentos artísticos, tanto na literatura, quanto na música ou nas artes visuais, Nova York ganha agora um documentário na web: New York Minute, nova produção do canal público europeu Arte.

O nome do projeto remete a uma expressão norte-americana imortalizada em uma canção da banda de rock The Eagles. Por ser muito movimentada e ativa, a cidade deu origem à gíria New York Minute, utilizada quando se quer dizer “imediatamente”. O desafio de representar uma capital tão influente em um webdoc foi solucionado em uma escolha inteligente, que inclui a representação de instantes decisivos em três movimentos distintos.

Midnight Marauder

Midnight Marauder - primeiro episódio de série é um bom documentário

Isso quer dizer que New York Minute é apresentado em três partes. Primeiramente existe uma série de seis documentários de curto formato que percorrem as cinco regiões da cidade ao lado de personagens marcantes.  O primeiro episódio, Midnight Marauder (único disponível no momento desta resenha), mostra a vida de um vendedor ambulante de CDs na Times Square, enfatizando a discussão sobre o assassinato de um de seus amigos artistas, cometido pela polícia em dezembro de 2009. A montagem de entrevistas, cenas noturnas, imagens de arquivo e depoimentos constrói bem essa relação narrativa.

A segunda parte do webdoc (A Hip Hop Guide to the Fast Life), em uma estrutura muito mais fragmentada, funciona como uma enciclopédia virtual, organizada por meio de um mapa com recursos de georeferenciamento. Aqui, o visitante navega pelas memórias urbanas, acessando blocos com vídeos, textos e fotografias de diferentes momentos da cidade. As coisas poderiam ser simples, mas a equipe do webdoc mostrou grande preocupação com os recursos. Assim, em uma interface limpa e bem organizada, o internauta pode filtrar os blocos por momentos temáticos, avaliar cada um (e acessar diretamente os mais bem avaliados ou mais vistos), ou partir para os próximos blocos por ligações temáticas ou temporais.

A última inovação de New York Minute, é um banco de som criado pela equipe de ArteRadio. Nessa página é possível escutar e fazer o download de sons diversos da cidade, das sirenes que atravessam o trânsito caótico às vozes difusas de diversos habitantes. É interessante escutar as mixagens realizadas por Samuel Hirsch, sobretudo o ritmo Intrumental, que transformas esses sons urbanos em uma batida empolgante. Quem preferir pode baixar 34 samples sonoros (de bolas de basquete, sirentes, palmas, etc…) e fazer sua própria mixagem.

New York Minute foi produzido em parceira com o estúdio francês Tetra Media, a revista Gasfase e os departamentos televisão e rádio do canal Arte. A produção teve ainda apoio do Centro Nacional do Cinema Francês (CNC) e da Canon, que lidera o mercado das câmeras fotográficas DSLR com capacidade para gravação de filmes, ferramenta muito utilizada pelos produtores de webdocumentários.

Com blocos estruturados de formas diferentes, levando a uma complementaridade narrativa, a produção faz um retrato justo da cidade, e pode ser forte candidata a futuras premiações.

New York Minute
Distribuição
: Arte
Produção
: Arte, Tetra Media e Gasfase
Apoio
: Canon e CNC
Em Inglês, Alemão e Francês

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Por todo o globo

Eight Billion Lives - Explore o nosso Mundo

O fenômeno que conhecemos hoje como “revolução digital” trouxe uma transformação radical no campo das comunicações. Informações antes agrupadas em complexos sistemas (textos armazenados em papel, fotografias, fitas de áudio, filmes etc…) são hoje convertidas para um sistema único, expresso em unidades binárias (bits), sendo capazes de atravessar o planeta na velocidade da luz por meio de cabos de fibra ótica ou sinais de satélites.

Diante desse fenômeno, produtores e realizadores vão rapidamente encontrando novas oportunidades para o “tratamento criativo da realidade”, segundo a definição clássica de documentário de John Grierson. Uma das tendências que se tem observado em diversas produções é a tentativa realizar uma obra como um registro único e histórico de nosso planeta, contando com o apoio de internautas colaboradores espalhados pelos quatro cantos do globo.

O primeiro projeto com essas características foi comentando em julho aqui no webdocumentário: trata-se de Life in a Day, realizado em parceria com o site de vídeos Youtube. O projeto propunha aos usuários do canal que registrassem atividades ou depoimentos quaisquer no dia 24 de julho, e esse material seria organizado em um filme longa-metragem. O projeto está em fase de execução. A estreia segue prometida para o festival de Sundance, em janeiro.

A mostra Doc Lab do festival internacional de documentários de Amsterdã, dedicada a novas formas narrativas para o gênero (leia o comentário aqui), deve, entretanto, antecipar o fenômeno para novembro, exibindo um projeto com  uma proposta parecida. One Day on Earth também quer criar um registro aberto da humanidade baseando-se em vídeos realizados em dias específicos: o primeiro convite para as gravações coletivas foi marcado para o dia 10/10/2010.

One Day On Earth

One Day On Earth - Projeto também conta com a colaboração de internautas

Ambos os projetos lançarão tanto uma versão tradicional em filme quanto uma na web. Se Life in a Day deve se apoiar nos suportes já consolidados do Youtube, One Day on Earth terá o desafio de desenvolver uma plataforma própria, capaz de atender a suas próprias propostas, que incluem a organização do material em grupos e a capacidade de discutir, compartilhar e inspirar soluções sobre questões específicas.

A mostra Doc Lab traz também um segundo projeto realizado de forma colaborativa por todo o planeta: Eight Billion Lives. A intenção desse último, entretanto, é menos fazer um registro visual de nossas vidas, mas celebrar e compartilhar aspectos da diversidade humana. O projeto, em vez de receber o material de colaboradores para posteriormente montar e organizar de determinada forma, seleciona primeiramente realizadores de filmes independentes ou amadores para se tornarem correspondentes.

Embora esse projeto também acredite no potencial narrativo do formato “a vida num dia”, nesse caso o dia retratado não é fragmentando espacialmente em um filme ou plataforma única, organizados pelos autores do projeto. Eight Billion Lives propõe que cada correspondente monte um vídeo próprio, cobrindo os momentos de seu dia (manhã, tarde e noite) a partir de seis determinados aspectos (atividade recreativa, atividade profissional, preparação de uma refeição, filmagem junto à uma criança, interagindo com outra pessoa ou discutindo objetivos e sonhos). Nesse projeto, é o espectador quem faz suas comparações e tira suas conclusões, enquanto navega pelos diferentes filmes sobre a vida de cada correspondente.

Com o crescente acesso às tecnologias, praticamente qualquer um pode se tornar um correspondente desses projetos. O aumento da velocidade de banda e a popularização do vídeo são fenômenos que certamente transformarão a maneira como representamos e compreendemos nossa realidade.

Felizmente, em meio a diversos conteúdos frágeis e descomprometidos que circulam na rede, pouco a pouco a internet consolida um campo sólido para o documentário. Um campo em que o espectador é convidado ao debate, podendo interagir com os vídeos e anexar comentários e conteúdos próprios. O documentário se transforma, e os festivais de cinema cedem espaço para essa tendência.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Descolonização francesa

Indépendance cha- cha - Le Monde

Indépendance cha- cha - Le Monde

O periódico francês Le Monde é uma das grandes referências mundiais quando o assunto é produções multimídia. Transitando tanto por narrativas de ficção quanto projetos de webdocumentários, o jornal consagrou um estilo web próprio. Embora grande parte de suas produções seja feita com base o uso de galerias de fotos sonorizadas, que utilizam depoimentos em áudio e fotografias estáticas para construir uma narrativa, o novo trabalho  Indépendance cha-cha : une Histoire de la Décolonisation Française (Independecia cha-cha: uma História da Descolonização Francesa) é formatado com recursos diferentes, carregado de textos escritos e imagens de arquivo.

O projeto aborda o processo da descolonização francesa no continente africano, analisando o período de 1914 a 1960. Utilizando as imagens de arquivo do próprio jornal e do Instituto Nacional do Audiovisual francês (INA), Indépendance cha-cha traça o retrato de personagens que tiveram papéis importantes e registra os episódios mais marcantes numa linha do tempo.

O visitante navega pelos anos, acessando livremente os eventos de seu interesse.  Cada página traz arquivos diversos, como jornais publicados na época, áudio de canções, discursos proferidos em conferências, fotografias, infográficos e textos explicativos. Utilizando os recursos disponíveis na internet, Le Monde disponibiliza uma grande quantidade de informações de forma prática e compreensível, construindo um pequeno acervo multimídia de livre acesso.

Indépendance cha-cha : une Histoire de la Décolonisation Française
Produção: Le Monde
Em francês

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário