Resenhas
Retrato argentino
Desenvolver roteiros de documentários envolve planejamento, pesquisa e a elaboração de uma proposta clara de abordagem. Nessa primeira etapa, o momento que costuma trazer mais complicações para roteiristas e diretores é o chamado recorte temático, quando se deve encontrar uma história factível, em meio a diversas questões que giram em torno do objeto escolhido. É possível, assim, imaginar quais dificuldades seriam encontradas para se fazer um documentário dedicado inteiramente a um país. O resultado é, entretanto, surpreendente em Argentina – Le Plus Beau Pays Du Monde (Argentina – O mais belo país do mundo), mais novo webdocumentário ARTE.TV.
Se um vídeo de 50 minutos dificilmente pode recortar e expor a complexidade de temas que envolvem a realidade de um país, David Gormenzano encontrou na não linearidade e interatividade dos webdocumentários uma plataforma adequada para organizar todo esse conteúdo. O canal europeu segue apostando em formatos de mídia cruzada, lançando-os posteriormente em sua grade televisiva na emissão intitulada Arte Reportage, mas Argentina, no entanto, será certamente melhor visualizado na sua versão web.
O projeto partiu da proposta de se lançar um olhar sobre as dificuldades econômicas vividas pela Argentina para que assim fosse possível melhor compreender as crises que agora afetam a Europa. O webdoc, porém, vai muito além, apresentando mais de 30 temas que vão desde crise e neoliberalismo até futebol e Diego Maradona. Se a formosa interface já merece consideração, o grande destaque fica mesmo por conta dos vídeos e pela maneira como são interligados.
Primeiramente, porque cada vídeo pode ser encarado como uma obra autônoma. Com boas sequências de depoimentos, entrevistas e imagens de cobertura, assistir a apenas um já pode ser bastante satisfatório. Além disso, o conceito de interatividade é usado de forma sofisticada, sendo possível navegar por palavras chaves e fazer pontos de ligação entre cada vídeo, partindo para de um para outro por meio de assuntos aproximados. Quem preferir também pode assistir a uma versão linear, dividida em três capítulos: “Um país em crise”, sobre as dificuldades políticas e econômicas da história argentina. “Um país em luta”, sobre as batalhas cotidianas e a vida no país; e “Família argentina”, sobre a diversidade e composição étnica de seu povo.
O bicentenário da independência foi o ano escolhido para o lançamento do filme. Entre as crises e lutas apresentadas, o internauta vai descobrindo um pouco sobre o país pelo fio de sua história. Enquanto se navega pelos temas, a Argentina vai transparecendo com uma alma apaixonante.
Argentina – Le Plus Beau Pays Du Monde
Produção: Subreal Productions
Distribuição : Arte.TV
Em Espanhol, Alemão e Francês
Atualização: em março de 2011, este trabalho foi o vencedor do WebTV Festival 2011 – Festival International de Télévision sur Internet de La Rochelle, na categoria webdocumentário, júri oficial.
Nas calçadas de Paris
Menos de um ano depois de seu lançamento, o projeto Brèves de Trottoirs (Crônicas das Calçadas) acaba de publicar uma nova edição. Em uma espécie de segunda temporada, o site estreou hoje com nova interface e oito vídeos inéditos, prometendo lançar novos episódios toda segunda feira.
Trata-se de um webdocumentário afetuoso, que propõe uma viagem pelas ruas de Paris partindo do retrato intimo e pessoal de seus habitantes. Cada episódio se concentra em determinada personalidade, criando uma relação entre a pessoa (seu oficio, suas características, suas opiniões e sentimentos) e determinada região da cidade. Um episódio é formado por um texto explicativo, alguns depoimentos em áudio, um belíssimo filme e uma seção de fotografias estáticas, os dois últimos apresentando uma excelente definição em tela cheia.
É possível, por exemplo, conhecer um pouco sobre Michel, um artista plástico que gosta de pintar sob a Pont des Arts, uma das mais famosas pontes do rio Sena; ou Daniel, motorista de ônibus que percorre diariamente todos os cantos da cidade; ou até mesmo Patrick, um interessante morador de rua parisiense.
Para conhecer bem cada personagem é preciso dedicar algum tempo, parar um instante e contemplar suas histórias extraordinárias. Assim, pessoas que cruzamos cotidianamente sem notar a presença vão se revelando personalidades formidáveis.
A segunda edição de Brèves de Trottoirs teve apoio de uma produtora especializada em plataformas moveis e do canal público francês France 3, o que fará com o que seja lançada, em breve, uma versão televisiva e uma versão para iPhones e iPads. O projeto teve também apoio de um site francês de compartilhamento de vídeos e de um periódico parisiense e contou com financiamento do Centro Nacional do Cinema Francês.
Com uma suntuosa interface e uma trilha original marcante, Brèves de Trottoirs distende um ar bucólico sobre a capital francesa. Se alguém já se sentiu acanhado diante da proporção aterrorizante do planeta e da quantidade de pessoas que nele circulam, um sentimento que pode tornar-se recorrente em uma grande metrópole como Paris, assistir a essas crônicas de calçada pode ser reconfortante. O filme apresenta não apenas fragmentos independentes de vida, mas mostra que a aproximação e o fortalecimento das relações sociais é um aspecto estimulante para a vida em coletividade.
Brèves de Trottoirs
Produção: Darjeeling e Paris 3
Distribuição: Paris 3
Patrocínio: CNC
Parceiras: Le Parisien, Daily Motion e Smartsystem
Em Francês
Atualização: em março de 2011, este trabalho foi o vencedor do WebTV Festival 2011 – Festival International de Télévision sur Internet de La Rochelle, na categoria webdocumentário, júri popular.
Mulheres indesejadas
A situação das mulheres na Índia pode ser considerada uma das piores do mundo. Discriminação, abandono e violência são episódios se perpetuam por toda a vida, desde o momento da gestação. A preferência pelo sexo masculino, legado de antigas práticas culturais, afeta o país inteiro e gera um desequilíbrio entre a distribuição de sexos. Undesired (Indesejado), do fotojornalista Walter Astrada, fala um pouco sobre essa realidade.
Produzido pela MediaStorm, uma das mais importantes produtoras de webdocumentários do mundo, o projeto traz fotografias fortes e depoimentos reveladores. Em um vídeo de 12 minutos, muito bem estruturado, é fácil perceber como o Dowry, espécie de dote a ser pago pela família da noiva no dia do casamento, traz conseqüências negativas para as mulheres do país.
Enquanto o homem traz para sua família a possibilidade de aquisição de dotes e enriquecimento, a mulher só pode ser vista como dividas a serem pagas, tornando-se quase insustentável em uma família com três ou quatro filhas. Dessa forma, casos de abortos baseados no sexo da criança tornam-se comuns, assim como o abandono e o desgosto da família diante do nascimento de uma menina.
O filme mostra também como as mulheres são tratadas, afastadas de direitos como educação e saúde, sendo criadas apenas para viverem em funções do marido. Em tal situação, não é difícil prever casos de violência doméstica, resultando possivelmente em morte, já que um novo casamento pode significar mais dotes para o noivo.
Embora Undesired seja um filme único, a página apresenta também um segundo vídeo: um epílogo apresentando uma entrevista com o fotógrafo autor do projeto e excelentes fotos de seu trabalho. Um pequeno infográfico mostra como a divisão de sexos vem se alterando na Índia, criando uma relação desproporcional entre o nascimento de mulheres e homens.
A grande novidade de Undesired é, entretanto, a possibilidade de “embedar” o projeto. Raro em webdocumentários, a ferramenta permite que o vídeo seja disponibilizado em qualquer site, aumentando seu campo de difusão.
Undesired
Produção: MediaStorm
Apoio: The Alexia Foundation
Uma nova visão sobre o câncer
Na França, estima-se que uma em cada dez mulheres seja atingida pelo câncer de mama no decorrer de sua vida. Para contar essa história e os desafios encontrados por quem contrai a doença, as jornalistas Léa Hamoignon e Clara Beaudoux entrevistaram seis mulheres que enfrentaram o câncer de mama. O resultado é o projeto Comment le Cancer du Sein m’a Changée (Como o Câncer de Mama me Transformou), do jornal francês Le Monde.
Enquanto o periódico francês vai consagrando um novo estilo de fazer reportagens, temas complexos, que exigem uma abordagem mais profunda, vão ganhando destaque. Nesse caso, é a questão do câncer de mama que é exposta com transparência, pela voz de mulheres que sentiram na pele as consequências de se conviver com a doença. As seis participantes do filme, com idades e horizontes de vida diferentes, fornecem depoimentos francos, derrubando os tabus que imperam quando temos que lançar um olhar próprio diante dos problemas dos outros.
O filme surgiu a partir de um trabalho realizado pelas jornalistas em uma clinica de oncoestética, que logo progrediu para um projeto maior. Ante a força dos depoimentos, Léa e Clara procuraram uma solução mais adequada para garantir a plenitude e a complementaridade da voz de suas entrevistas: a melhor plataforma encontrada foi o webdocumentário.
Com uma navegação sofisticada, quem acessa o projeto pode trafegar tanto por temas específicos quanto ater-se a uma única personagem. Cada depoimento, baseia-se em fotografias estáticas e áudio em off. Além desses “fotovídeos”, pode-se acessar o perfil de cada entrevistada, um blog e um dicionário sobre o tema.
O projeto foi desenvolvido pela agência Ligne 4 e tem apoio dos órgãos públicos franceses Centro Nacional do Cinema (CNC) e Ministério da Saúde e dos Esportes. Se o webdocumentário não é capaz de esclarecer todos os aspectos sobre a doença, ao menos transmite uma bela mensagem de esperança e sensibilização.
Comment le Cancer du Sein m’a Changée
Produção : Ligne 4
Distribuição : Le Monde
Apoio : CNC e Ministère de la Santé et des Sports
Crônicas de uma economia paralela
A temática do trafico de drogas é global. Complexa e sensível, apresenta facetas e opiniões que apontam em variadas direções. Em tempos em que o discurso dominante é o da insegurança e da violência, o jornal francês Le Monde procura uma nova abordagem. O webdocumentário Petites Mains – Chronique d’une Économie Parallèle (Pequenas Mãos – Crônica de uma Economia Paralela), é mais uma boa produção multimídia do jornal.
Dando voz a dois jovens traficantes de droga, a produção recorta bem o tema, concentrando-se no papel que exercem esses pequenos agentes na engrenagem do tráfico. Sem moralismos, a ilegalidade cotidiana desses meninos é perpassada em seis vídeos de curta duração, contrastando seus depoimentos e experiências com as opiniões de um educador, de um juiz da infância e da adolescência e de dois sociólogos.
Das tentações que levam os jovens para o tráfico ao destino final de suas trajetórias no crime, a produção faz um esforço de mapear quem são esses pequenos traficantes, como eles começam a exercer a atividade, como sentem o contato com a droga, com o dinheiro e quais suas relações cotidianas. Traçando um perfil psicológico, o filme fala também de uma nova identidade que esses jovens buscam e como suas vidas se transformam.
O filme traz depoimentos sinceros, acompanhados de uma série de fotografias de áreas da periferia francesa, ambientando o universo de vida desses jovens. Seus rostos não aparecem e os nomes foram trocados por questões de segurança, mas, de qualquer forma, Malik e Sam, resumem bem o que poderia ser a historia de muitos outros jovens franceses.
Com essa abordagem, a produção mostra que inclusão social e melhorias socioeconômicas são o caminho para conter o fenômeno: com tantos jovens concorrendo pelo mesmo destino, a tática de repressão e violência pouco resolve.
Petites Mains
Produção: Le Monde
Em Francês
Catedral a céu aberto
A jornalista Hélène de Billy e o fotografo Gilbert Dudos são dois amantes do Mont Royal, um grande parque na cidade de Montreal, Canadá. Partindo dessa admiração pelo local, considerado sagrado pela co-realizadora, o casal decidiu registrar histórias dos moradores em fotografias, vídeos e depoimentos, construindo uma relação quase religiosa entre os habitantes de Montreal e o parque que dá nome à cidade. O resultado é o projeto Sacrée Montagne (Montanha Sagrada), mais uma produção interativa do National Film Board of Canada.
Abordando o tema através da grande diversidade cultural e social presente no entorno da montanha, os autores interrogam a “persistência do sagrado em uma sociedade abjeta à religiosidade dogmática”. A resposta, eles encontram em manifestações como o evento que reconstitui as grandes guerras medievais de caráter religioso, o trabalho de músicos, dançarinos e malabaristas que praticam suas atividades na montanha, os pique-niques, churrascos de domingo e outros rituais que acontecem ali e representam uma espécie de relação espiritual com a montanha.
Mesmo que a abordagem soe forçada, o resultado é surpreendente. Sacrée Montagne é uma ode de amor ao monte Royal. Carregado de poesia e sensibilidade, o filme proporciona uma imersão interativa na montanha. Embora um pouco pesado, o trabalho gráfico é extraordinário, conjugando os vídeos e fotografias em uma plataforma 3D. Além do material produzido pelos autores, o site anexa automaticamente fotografias de usuários tiradas no parque e postadas em sites pessoais de fotografia. Por fim, os autores indicam alguns filmes relacionados ao tema, que podem ser assistidos gratuitamente no site do National FIlm Board of Canada.
Sacrée Montagne
Produção: National Film Board of Canada
Em Francês
A língua da Minoria
Acaba de ser lançado o webdocumentário Save My Language (Salve Minha Língua), debruçando-se sobre diversos idiomas regionais do velho continente. O projeto foi produzido pelo Conselho Europeu, mais especificamente pelo Departamento de Línguas Regionais ou Minoritárias, órgão que tem como objetivo preservar e promover a riqueza e a diversidade do patrimônio cultural da Europa, destacando o papel fundamental que exercem os idiomas nos processos culturais.
Em um continente com mais de 200 línguas, muitas das quais não são sequer escritas e correm o risco de desaparecer, o filme argumenta sobre o perigo da extinção de idiomas, afirmando que quando uma língua morre, “leva junto também sua cultura, sua tradição…”. A produção é constituída de um vídeo único, montado com fotografias, voz over, depoimentos e sons ambientes – entretanto, o espectador é livre para avançar pelos blocos e sub-blocos temáticos. Navegando pelo site, o visitante percebe rapidamente a forte relação que existe entre o dialeto e a cultura de um povo.
A produção coopera com uma das principais preocupações da Unesco, que diz respeito ao perigo da homogeneização cultural – uma das conseqüências negativas da globalização. Quem assiste, percebe que o patrimônio cultural imaterial da humanidade não pode desassociar praticas culturais, rituais e idiomas. E que a extinção de um pode desencadear a extermínio dos outros.
Save My Language
Produção: Council of Europe
Distribuição: Council of Europe
Em Inglês e Francês
Kroo Bay: favela em 360 graus
No rio que atravessa a favela de Kroo Bay, em Freetown, Serra Leoa, quase não se vê água. É o lixo, de fato, que ocupa a maior parte do córrego. Dividindo espaço com porcos, alguns meninos procuram por ali alguma sucata que talvez possa ser negociada. No horizonte, barracos de madeira e um céu azul. Apesar da aparente calma, um texto indica que, durante a temporada de chuvas, o rio alaga, contaminando os habitantes da favela com doenças que costumam ser fatais, sobretudo para as crianças…
A imagem descrita acima é a primeira de 13 fotografias em 360 graus que compõem o webdocumentário Kroo Bay, de Anna Kari e Guilhem Alandry. Acompanhando cada uma dessas imagens panorâmicas, um pequeno texto e um ou dois links para slide shows ou vídeos compõem o projeto.
Comissionado pela ONG inglesa Save The Children, a ideia inicial é simples: a organização sabe que a indiferença frente a projetos sociais não vem da falta de interesse pela população menos favorecida, mas, sobretudo, da falta de compreensão dos dilemas da miséria e da situação daqueles que habitam em favelas como Kroo Bay, em Serra Leoa, país apontado pela ONU como o pior lugar para se nascer. Assim, o webdoc foi feito com o intuito de conectar os apoiadores da organização a uma realidade que eles estão ajudando a mudar.
Embora necessidades específicas da comunidade, como saúde, mortalidade infantil, educação, poluição e fome, sejam abordadas em alguns blocos, o projeto obtém êxito principalmente por procurar demonstrar a complexidade e a riqueza do lugar. Assim, momentos em que são mostrados dois artistas locais de hip hop, ou o campo de futebol e a paixão por esse esporte, são os mais eficazes, sendo capazes de conectar experiências de pessoas ao redor do mundo que dividem as mesmas paixões, esperanças e sonhos com aqueles de Kroo Bay.
O site que contém o webdoc é, na verdade, a versão de Anna e Guilhem para o projeto. A versão inicial, disponível no site da ONG, contém outras funcionalidades de campanha, como links para doação e levantamento de recursos.
Kroo Bay, de Anna Kari e Guilhem Alandry
Comissionado por: Save The Children
Produção: Applied Works
Planeta Gálata – uma ponte em Istambul
O patrão de um determinado restaurante, dois cozinheiros do restaurante vizinho, um assíduo apostador de cavalos, dois catadores de papel, um jovem menino que sonha ser pescador… Todos são personagens que habitam ou vagam pelas áreas próximas à ponte Gálata, na capital da Turquia. A partir de seus depoimentos, suas memórias e opiniões, o espectador de Planète Galata (Planeta Gálata), constrói uma imagem própria sob o microcosmo que representa a lugar.
Na fronteira cultural do globo, no limite entre ocidente e oriente, é difícil dizer se Istambul é o começo de um ou o final do outro. A famosa ponte Gálata, que une duas regiões da cidade, representa bem esses diferentes traços que fazem de Istambul uma das mais heterogêneas capitais. O filme, realizado pelo renomado documentarista e artista multimídia alemão Florian Thalhofer, tenta abordar alguns aspectos dessa realidade numa narrativa multimídia.
Thalhofer deve saber como ninguém que, como dizia o diretor e produtor francês Jean Renoir, cada espectador vê um filme diferente em função de sua própria existência. Talvez partindo dessa idéia, e insatisfeito com as limitações da narrativa linear clássica do documentário, o realizador tenha criado a plataforma Korsakow, na qual foi feito o projeto.
Korsakow é um software para criação de narrativas não lineares, baseado em banco de dados, criado pelo diretor no ano 2000, em função de necessidades de um projeto. A particularidade dessa plataforma, e dos filmes de Thalhofer disponíveis na internet, é de que cabe ao internauta controlar o desenvolvimento da narrativa. “No mundo real, as histórias não se sucedem num esquema pré-estabelecido, elas se desenvolvem todas ao mesmo tempo. O computador é a mídia ideal para transpor esse principio”, afirma o diretor.
Se o principio é comum nas produções de webdocs, o que Thalhofer criou pode ser considerado um sistema próprio. A produção é toda baseada em SNUs (Smallest Narrative Units = Menores Unidades Narrativas), que seriam os blocos fundamentais de cada projeto: vídeos editados de 30 segundos a 2 minutos associados a palavras-chave ou regras específicas. A partir dessas palavras-chave são criadas possibilidades de “links” de entrada e saída entre as SNUs, os chamados “pontos de contato” (ou POCs). Um filme Korsakow (ou K-Film) é formado por essas várias conexões, num complexo mosaico de elementos. (Veja o vídeo abaixo)
Florian Thalofer recebeu diversos prêmios por produções desse tipo e Planète Galata mostra de forma eficiente como sua ferramenta pode ser utilizada para tornar palpável a diversidade e complexidade cultural em uma narrativa audiovisual.
Veja como funciona o sistema Korsakow:
Planète Galata
Distribuição: Arte
Em Francês e Alemão
Um formato para séries e sequências
Desde setembro de 2009, o National Film Board of Canada (Escritório Nacional do Filme) disponibiliza na rede a série PIB – O Índice Humano da Crise Econômica Canadense. O projeto é um dos maiores trabalhos de webdocumentário já realizados, se propondo a documentar as consequências do cenário econômico nos habitantes do país.
Sob a direção da documentarista Hélène Choquette, uma enorme equipe distribuída pelo território canadense alimenta o site, em inglês e em francês, procurando retratar em vídeos as histórias das pessoas mais tocadas pela crise. A idéia inicial é a de que só é possível termos uma noção verdadeira da crise quando vemos o cotidiano sendo afetado: pessoas que perdem seus empregos, perdem confiança, precisam de dinheiro…
Assim, o webdoc revela casos como o de um operário desempregado do setor automotivo de Ontário, um administrador de hotel sem clientes há 10 anos na Colúmbia Britânica, as dificuldades vividas por jornalistas que perderam seus postos no mais importante jornal canadense ou os desafios na vida de um artista diante de um mercado em colapso. Ao todo, são 17 histórias contadas até o momento. Além disso, diversos ensaios fotográficos, agrupados por temas ou em um mapa, foram sendo realizados e disponibilizados no site.
PIB recebeu prêmios importantes, como o prêmio do público na categoria de webdocumentário do festival de WebTV de La Rochelle, comentado aqui em Webdocumentário, e o Prêmio Numix de excelência em produção multimídia do Québec.
Se o projeto encontra reconhecimento, por trás de sua produção está uma das mais importantes agencias públicas de cinema do mundo. A National Film Board já produziu e distribuiu mais de 13 mil produções, ganhando mais de 5 mil prêmios.
Fundada por John Grierson, um dos principais nomes da história do documentário, a agência que marcou época chega com muito fôlego no século 21. Além de documentários, produções alternativas e animações, a NFB apoia conteúdos multimídias e desde 2009 oferece na web a exibição gratuita de centenas de seus filmes.
Séries on-line - Se PIB e a National Film Board encontraram na web uma nova forma para a narrativa de seus documentários, e em particular para as séries documentais, também outros produtores apostam em trabalhos de longa duração como este.
CameraWar é uma aposta do cineasta independente Lech Kowalski para uma nova forma de fazer filmes. Durante um ano, o diretor disponibilizou um novo vídeo a cada semana. Outro projeto: Interview Project, ancorado pelo cineasta David Lynch, mostra um pouco do estilo de vida americano em 121 entrevistas com pessoas “normais”, realizadas ao “acaso” por seu filho Austin Lynch durante 10 semanas numa viagem que atravessou os Estados Unidos.
A escolha pelas séries como opção pelos webdocumentaristas pode atender a um duplo propósito. Por um lado, permite uma maior profundidade de abordagem. Por outro lado, os projetos de longo prazo permitem uma exposição maior do produto e, em consequência, têm potencialmente uma audiência maior. Com isso, cresce o potencial de geração de receita – seja para modelos de financiamento baseados em publicidade, como o dos portais jornalísticos, seja para projetos financiados por patrocínios culturais de instituições que buscam retorno de imagem pelo reconhecimento da audiência.
Com a fragmentação do vídeo e a liberdade do espectador para navegar pelo conteúdo, a linguagem se renova e novos horizontes são criados para a representação da realidade no campo do documentário.
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